domingo, 31 de outubro de 2010

Mestre Bel avalia política cultural em Feira de Santana-BA


Em entrevista sedida ao jornalista Egberto Siqueira, do Blog da Feira, importante veículo da imprença digital baiana, o Mestre Bel, coordenador geral do Malungo, avalia a política cultural em Feira de Santana-BA e faz algumas provocações. Segue na íntegra o texto da entrevista:

“O Pró-Cultura é um paliativo barato”
Em entrevista ao Blog da Feira, o historiador e mestre de capoeira Bel Pires fez duras críticas ao tratamento dado pelo Governo à produção cultural de Feira de Santana. Segundo ele, os grupos artísticos precisam criar as próprias condições de trabalho porque não existe uma política pública na cidade.
“O Pró-Cultura funciona como um paliativo barato e os grupos políticos que dirigem a máquina pública não concebem esse fomento à cultura como obrigação”, destaca. Ainda segundo ele, os artistas acabam fazendo cultura com o dinheiro do bolso. Os benefícios financeiros do Estado ou do Governo Federal ainda acontecem de forma tímida.

“O Espaço Quilombola é uma piada”
Sobre o espaço dado às manifestações culturais afro, como a capoeira, o samba e as entidades carnavalescas, Bel Pires acredita que boa parte vive por conta própria. ‘’O Espaço Quilombola, criado no circuito da Micareta, é uma piada. Nós não temos festivais, não temos concursos, não temos editais, não temos nada. E ainda têm que aguardar aquela migalha da Micareta”, reclama.
Bel Pires afirma que as iniciativas privadas dependem das articulações desses mesmos grupos com seus pares de outras regiões. E o poder público, segundo ele, raramente apóia os poucos eventos do gênero que acontecem em Feira de Santana.

Secretaria de Desenvolvimento Social ignora as manifestações culturais
“Essa Secretaria não entende que o fomento às práticas culturais simbólicas faz parte desse conjunto de bens sociais da comunidade. Se entende, está longe de desenvolver políticas nesse sentido”, frisou.
Para ele, esse tipo de ação somada ao acesso à escola de qualidade, alimentação, emprego e lazer constituem elementos fundamentais para o desenvolvimento social de qualquer cidade.
Bel Pires vê na valorização das manifestações da cultura uma forma do município acolher os indivíduos socialmente. No entanto, a arte acaba sendo excluída das ações e recursos originados da Secretaria de Ação Social do Município.

“Quantos artistas saíram de Feira?”
A lógica de mercado para Bel Pires não tem muito segredo: ao estimular a cultura na cidade, o município também aquece o mercado cultural e, consequentemente, impulsiona a economia local. “Quantos artistas saíram de Feira para tentar viver de sua arte em outros municípios, como na capital, e até mesmo em outros estados e países? Não preciso ir para Salvador para pagar o ingresso de um belo festival. Feira pode me proporcionar isso. Meu consumo seria aqui mesmo”, explica.
o município também poderia colher frutos deste mercado. Para chegar a esta conclusão, Bel Pires cita os encontros de capoeira, que atraem pessoas de vários países para Feira. Esses "turistas" acabam viajando para Salvador, Cachoeira ou para o litoral por falta de atração turística em Feira. “Se não temos política cultural, dificilmente teríamos condições de explorar o nosso potencial turístico, principalmente no que tem chamado de Turismo Cultural. Investir em cultura é também investir na economia local", observa.

“O feirense não está preocupado com os bastidores do evento cultural”
Na última parte da entrevista, Bel Pires fala sobre o comportamento da comunidade. Ele acredita que o feirense ainda desconhece como é feita a produção cultural na cidade. “O feirense se queixa das condições materiais nas quais o evento foi oferecido, o preço do ingresso e até a qualidade do som. Mas não questiona a ausência de artistas locais nos festejos públicos, o valor diferenciado entre artista da grande mídia e os poucos da terra em festas realizadas com o dinheiro público”, pontua.
Para finalizar, Bel Pires pede maior cumplicidade do feirense com os artistas e produtores culturais do município. “Quanto a nós, intelectuais, artistas, pequenos produtores e sonhadores devemos, pelo menos, discutir o problema, o que não está acontecendo ainda efetivamente. A cultura na cidade também é nossa responsabilidade", concluiu.
Fonte: http://www.blogdafeira.com.br/

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

"Dia do Professor": uma homenagem ao mestre João Pequeno de Pastinha

O dia 15 de outubro é lembrado todos os anos como o "Dia do Professor". Por mais que entendamos que o "Dia do Professor" é todo dia, pois o seu ofício de formador se aplica no cotidiano, dedicaremos este dia a uma das mais emblemáticas figuras da nossa aprendizagem como agentes culturais: o mestre capoeira! Assim, a homenagem de hoje fica para o saudoso mestre João Pequeno de Pastinha.

***



João Pereira dos Santos, o Mestre João Pequeno nasce em 27 de dezembro de 1917, no município de Araci, interior baiano. Logo se muda junto com seus pais para o município de Mata de São João, onde seu pai trabalhava como vaqueiro numa fazenda. João vive boa parte de sua juventude nesse município, e tem o primeiro contato com a capoeira através de Juvêncio, um vaqueiro amigo de seu pai, que havia aprendido capoeira com o lendário Besouro Mangangá, da cidade de Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano.
Em Mata de S.João, João Pequeno foi agricultor e carvoeiro, residindo e trabalhando nessa cidade até por volta de seus trinta anos de idade.
João muda-se para Salvador, no início da década de 1940, e começa a trabalhar como servente de pedreiro. No ano de 1945, numa roda de capoeira na Praça Dois de Julho, conhece mestre Pastinha - considerado o mais importante mestre de capoeira angola de todos os tempos - que o convida para visitar o espaço onde dava aulas. João Pequeno foi e ficou. Logo recebeu de Pastinha a incumbência de ensinar os alunos novos que iam chegando em sua escola: João Grande, Curió, Moraes, Gildo Alfinete e tantos outros mestres de capoeira angola hoje reconhecidos internacionalmente, passaram pelas suas mãos.
João Pequeno ficou conhecido como o mais importante aluno do mestre Pastinha, e considerado o herdeiro maior dessa tradição que mestre Pastinha aprendeu com o africano Benedito.
Durante o período de agonia e morte do mestre Pastinha, no início da década de oitenta, João Pequeno passa um período afastado da capoeira trabalhando como feirante na Feira de São Joaquim em companhia de sua esposa “Mãezinha”. A capoeira angola passa então por um período de decadência e enfraquecimento, restando apenas alguns poucos resquícios de sua prática em alguns poucos “guetos” de Salvador e no Recôncavo Baiano.
Porém a capoeira angola retoma, sobretudo a partir das duas últimas décadas do século XX, um fôlego e um vigor admiráveis, justamente em função de um processo muito bem articulado por importantes lideranças baianas, no sentido de valorização da consciência negra e da africanidade. Segundo o pesquisador Jair Moura (2003), esse processo iniciou-se na década de oitenta daquele século, e teve um caráter político importante, envolvendo militantes do movimento negro e intelectuais baianos, mas também nele, tiveram um papel fundamental o mestre João Pequeno, quando funda em 1981, o Centro Esportivo de Capoeira Angola Mestre João Pequeno de Pastinha no Forte Santo Antonio além Carmo, e também alguns outros mestres tradicionais da então agonizante capoeira angola, como o mestre João Grande, mestre Curió e mestre Moraes.
A prática da capoeira angola vem crescendo em grande medida, não só em todo o Brasil, como em vários países da Europa e Ásia, sem falar nos EUA, onde reside atualmente, por exemplo o mestre João Grande, que no ano de 1995 foi agraciado com o título de doutor honoris causa pela Universidade de UPSALA, em New Jersey. Nos EUA, em Washington, está também sediada a FICA (Fundação Internacional de Capoeira Angola) presidida pelo mestre brasileiro Cobra Mansa. Grupos brasileiros de capoeira angola mantêm sub-sedes em vários países do mundo como México, Israel, França, Inglaterra, Alemanha, Japão, entre tantos outros. Mestres de capoeira angola do Brasil viajam constantemente para o exterior a fim de ministrar cursos e oficinas, para os quais tem existido um interesse cada vez maior, por parte do público desses países.
A academia do Mestre João Pequeno é uma das mais tradicionais da Bahia, e nela ainda hoje acontecem aulas de capoeira dadas por seus alunos sob sua direção, e uma das rodas de capoeira mais concorridas de Salvador, onde podem ser encontrados visitantes e capoeiristas de todas as partes do mundo, que vem “beber na fonte” a tradição que hoje se espalha por todo o planeta.
O mestre João Pequeno viaja pelo mundo afora, visitando países como a França, Inglaterra, Alemanha, Suécia, Japão, Israel, Estados Unidos, Itália, Espanha, Chile entre outros, levando sua capoeira angola, sua simplicidade e sua sabedoria, encantando a todos que tem o privilégio de compartilhar esses momentos tão ricos ao lado desse fabuloso personagem de nossa cultura popular.
Ele presta depoimento ou é citado em um número muito grande de livros, monografias, dissertações de mestrado, teses de doutorado, etc... cujos autores/pesquisadores a ele recorrem, como fonte privilegiada de informações, por ser João Pequeno parte da memória viva da capoeira na Bahia, no Brasil e no mundo.
João Pequeno foi agraciado em 1998, com o título de Cidadão da Cidade de Salvador, que recebeu da Câmara de Vereadores numa grande homenagem.
Em 2003, o analfabeto João Pequeno recebe o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal de Uberlândia, e a Comenda Zumbi dos Palmares, do Governo do Estado de Alagoas. No mesmo ano, João Pequeno recebe das mãos do presidente Luis Inácio da Silva, o título de Comendador da República do Brasil.
João Pequeno de Pastinha é hoje o maior símbolo vivo da capoeira, que aos 93 anos de idade, insiste em continuar jogando e ensinando pelo mundo afora, a sua capoeira angola que aprendeu com o mestre Pastinha.


*(Texto extraído do Memorial do mestre João Pequeno, cedido gentilmente por Pedro Abib, aluno do velho mestre)

terça-feira, 5 de outubro de 2010

O "Manifesto da Bahia" - as primeiras polêmicas em torno do Pró-Capoeira

Camaradas,
recebemos o documento abaixo e colocamos à disposição de todos os interessados em discutir a temática neste espaço de informação e reflexão. Segue o texto:

"MANIFESTO DA BAHIA

Nós, mestres, contra-mestres, professores, alunos e pesquisadores da Capoeira da Bahia, reunidos no último dia 22 de setembro de 2010, no Forte da Capoeira na cidade de Salvador, em assembléia amplamente convocada para avaliar questões referentes ao PRÓ-CAPOEIRA, decidimos manifestar publicamente nossa posição, nesse momento que julgamos fundamental para o destino das políticas públicas sobre capoeira no Brasil, a partir dos seguintes pontos:
a) Não temos acordo com a FORMA DE DEFINIÇÃO DOS PARTICIPANTES do Encontro Regional Nordeste, realizado em Recife nos dias 8, 9 e 10 de setembro, pois em NENHUM MOMENTO foram explicitados claramente os critérios de seleção dos consultores responsáveis pela articulação em cada região, nem muito menos os critérios de seleção adotados para a definição dos representantes de cada estado para participarem dos Grupos de Trabalho do referido encontro.
b) Não temos acordo com a FORMA DE DISCUSSÃO estabelecida no encontro de Recife, onde as propostas discutidas em cada GT NÃO PASSARAM PELA APROVAÇÃO DA PLENÁRIA FINAL, causando muito desconforto entre os participantes, que não se sentiram contemplados com muitas das propostas apresentadas pelos GTs
Manifestamo-nos firmemente CONTRA algumas propostas apresentadas pelos Grupos de Trabalho, que não refletem o pensamento da comunidade da capoeira como um todo, mas APENAS UMA PARCELA dessa comunidade, no que diz respeito a:

1. Formalização de um modelo oficial da capoeira como ESPORTE DE ALTO RENDIMENTO, visando a sua inclusão nas Olimpíadas. Vale observar que não nos opomos a quem queira conduzir a capoeira como esporte. Nosso posicionamento é contrário a FORMALIZAÇÃO LEGAL E OFICIAL da capoeira como esporte olímpico, o que naturalmente negaria a diversidade de suas práticas.
2. Regulamentação da profissão a partir da LÓGICA DO MERCADO, engessando a capoeira num modelo pré-estabelecido e submetendo toda a comunidade de mestres e professores a um Conselho Federal que será o responsável por determinar quem pode e quem não pode exercer essas funções
3. Submeter a formação do capoeirista ao ensino universitário como obrigatoriedade, QUEBRANDO ASSIM AS FORMAS TRADICIONAIS de transmissão desses saberes, onde o mestre tem papel central.

Diante do exposto, EXIGIMOS que o processo de discussão encaminhado pelo PRÓ-CAPOEIRA, seja mais DEMOCRÁTICO, possibilitando que a DIVERSIDADE de opiniões e visões sobre capoeira possam se fazer representar.
Exigimos também que os CRITÉRIOS DE DEFINIÇÃO DOS REPRESENTANTES dos estados possam ser explícitos, e que possam garantir que as discussões nos GTs e plenárias sejam qualificadas com a presença de mestres, professores e pesquisadores que possam contribuir de forma efetiva na elaboração das propostas, tanto nos ENCONTROS REGIONAIS, como na PLENÁRIA FINAL, marcada para a Bahia no próximo ano.


Salvador, 22 de setembro de 2010".

Considerando que já havíamos refletido sobre a temática em nosso livro CAPOEIRA, IDENTIDADE E GÊNERO (P. 54-55), declaramos que o Malungo Centro de Capoeira Angola apoia este movimento!