domingo, 22 de novembro de 2009

Besouro Mangangá, o capoeira: notas sobre uma etnografia áudio-visual

Depois de muito assédio por parte da grande mídia acerca do filme "Besouro, nasce um herói", do diretor João Daniel Tickomiroff, que será lançado em outubro, finalmente fui convencido a escrever sobre.
Para decepção ou não dos leitores do PORTAL FS, não escreverei sobre o "Besouro" hollywoodiano e sim sobre a bela etnografia áudio-visual produzida pelo capoeirista baiano Pedro Abib, que revela memórias sobre um capoeirista Besouro mais próximo de nossa realidade.
A capoeira no Brasil tem sido objeto de investigação desde o século XIX. Inicialmente foi subjugada à pena dos literatos e folcloristas, a exemplo de Plácido Abreu e Melo Moraes Filho, responsáveis por belas descrições da capoeiragem carioca no século XIX.
Na Bahia, a chamada etnografia africanista deu os primeiros passos para a especulação do universo da capoeira nas ruas da capital, com Manuel Querino e Edison Carneiro, nas primeiras décadas do século XX. A partir dos anos 1950 a linguagem etnográfica começou a ganhar outros rumos no que diz respeito ao registro das práticas de capoeira. Este era o caso dos vídeos-documentários, destaca-se a primazia, para o caso da Bahia, de obras como "Vadiação" (1953) e "O Galo já Cantou" (1962).
Neste período os programas de pós-graduação responsáveis por uma boa parte da produção da literatura histórica e sócio-antropológica sobre a capoeira no Brasil, ainda não tinha se iniciado. Hoje se pode contar com um conjunto considerável de produção nas áreas de história, antropologia, sociologia, Educação Física, etc. Entretanto, ainda continua somando à literatura da capoeira, com certa magnitude e estrelismo, a linguagem áudio-visual com o poder imagética da etnografia vídeo-documentada.
Em termos de exemplo merece destaque "Memórias do Recôncavo: Besouro e outros capoeiras" (2008), do capoeirista, músico e professor do Departamento de Educação da UFBA, Pedro Jungle Abib.
Pedro Abib, é capoeirista, aluno do Mestre João Pequeno de Pastinha. Doutor em Ciências Sociais Aplicadas à Educação pela Universidade Estadual de Campinas-SP, já dirigiu outros vídeos-documentários a exemplo de "Batatinha e o Samba Oculto da Bahia" (2007), premiado com dois "Tatu de Ouro" na 34ª Jornada Internacional de Cinema da Bahia - 2007 (melhor Documentário e melhor Vídeo da Jornada) e Menção Honrosa no Festival de Cinema Atlantidoc – Montevideo – Uruguai – 2007; "Divino Espírito Popular" (2006 ) selecionado para a Jornada Internacional de Cinema da Bahia -2006 e convidado para o Festival de Cinema Africano em Tarifa (Espanha) – 2006; "O Velho Capoeirista: Mestre João Pequeno de Pastinha" (1999) Prêmio Melhor Documentário no Festival de Artes da UNICAMP – 2002.
"Memórias do Recôncavo: Besouro e outros Capoeiras", foi estreado como parte da programação da 35 Jornada Internacional de Cinema da Bahia, em setembro de 2008. A obra trata de Besouro Mangangá, o valente capoeira que se tornou um dos grandes mitos populares da história da capoeira baiana.
O Documentário foi contemplado pelo edital Capoeira Viva – 2006 do Ministério da Cultura do Governo Federal, aborda a experiência dos capoeiras no Recôncavo Baiano, conseguindo alcançar décadas remotas do século XX, período que viveu muitos capoeiras como o lendário Besouro Mangangá.
A partir de depoimentos de antigos capoeiras que ainda moram na região de Santo Amaro da Purificação-BA, assim como a consulta da bibliografia básica sobre capoeira na Bahia, Pedro Abib, conseguiu reconstituir parte importante da memória sobre fatos e personagens envolvidos com esta manifestação da cultura afro-brasileira, trazendo ainda um rico acervo de imagens de arquivo.
Por muito tempo acreditou-se que as histórias de Besouro não passavam de lendas, invenções da ficção popular que ganhou grandes proporções na memória da capoeira. Pesquisas recentes recuperaram importantes documentos que põe por terra a idéia de que Besouro era uma simples lenda.
Os trabalhos de Antônio Liberac Pires, professor da Universidade Federal do Recôncavo Baiano assim como de José Gerardo Vasconcelos, professor da Universidade Federal do Ceará, revelam fontes históricas fidedignas sobre a existência do capoeira Besouro Mangangá, ou Besouro de Santo Amaro, como era também conhecido.
A etnografia vídeo-documentada de Pedro Abib, vem somar com muita competência e lucidez aos trabalhos de outros pesquisadores na busca de revelar os segredos guardados nos esconderijos de nossa história, e no caso em questão revelados por uma memória afro-brasileira que não deve se calar.
Besouro não se calou! "Memórias do Recôncavo" é a prova disto. Espera-se que a obra de Pedro Abib, funcione como estímulo para a produção sobre a experiência de outros personagens da cultura popular baiana e seus segredos que ainda estão guardados nos esconderijos de nossa história.

Este ensaio foi publicado em 10 de setembro de 2009 no Portal FS, disponível em www.fsonline.com.br

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Mestre Virgílio e a Roda da Paz - muito brinquedo no Sul da Bahia

O Malungo repassa aos companheiros de viagem, o convite do Mestre Virgílio de Ilhéus. Não percam este Evento:


A Associação de Capoeira Angola Mucumbo –A.C.A.M - convida a tod@s para o 8º Encontro de Capoeira Angola– Roda da Paz 2009.
A Roda da Paz é um evento organizado pelo Mestre Virgílio de Ilhéus e que já virou tradição como forma maior de expressão da capoeira angola na cidade de Ilhéus
Este ano durante os dias 05 e 06/12/2009 o evento contará com oficinas de capoeira angola com os Mestres: Jogo de Dentro (Grupo Semente do Jogo de Angola – BA), Plínio (Angoleiro Sim Sinhô – SP) e Bel ( Malungo Centro de Capoeira Angola – BA), e rodas abertas na praça de Olivença e na praça da Catedral de Ilhéus.
Para o Mestre Virgílio, a Roda da Paz é um símbolo de união, reflexão e agradecimento: “Será um grande momento de confraternização para a capoeira angola de Ilhéus.”

PROGRAMAÇÃO: (ATENÇÃO VAGAS LIMITADAS!!)
Sábado 05/12:
08:00 as 10:00h - Inscrições e credenciamento
10:00 as 12:00h – Oficina de Movimentos
12:00 as 15:00h - Intervalo
15:00 as 17:00h– Oficina de Movimentos
19:00 – Roda na Praça de Olivença
Domingo 06/12:
10:00 as 12:00 – Oficina de Movimentos
19:00 – Roda da Paz 2009 – Praça da Catedral

Valores:
Uma Oficina = R$20,00
Duas Oficinas = R$30,00
Três Oficinas = R$45,00 + Camisa do Evento

Para mais informações e inscrições: www.mucumbo.blogspot.com ou capoeiramucumbo@yahoo.com.br

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

O Malungo está de luto. Morreu o grande mestre do carimbó

Foto: Augusto Leal



“O carimbó não morreu
Está de volta outra vez
O carimbó nunca morre
quem canta o carimbó sou eu".

Mestre Verequete

Hoje, o Pará perdeu mais um ícone da cultura popular, o verdadeiro rei do carimbó. Augusto Gomes Rodrigues, Mestre Verequete, estava internado no Hospital Universitário Barros Barreto desde o dia 29 de outubro.
No domingo, deu entrada no Centro de Terapia Intensiva (CTI), com complicações respiratórias decorrentes de um enfisema pulmonar.
Há alguns dias os jornais vinham noticiando o estado grave de Mestre Verequete. Foram seis dias de agonia, com ele hopitalizado. No início da tarde desta terça-feira, 03, as batidas dos tambores silenciaram e a notícia se espalhou rápida e tristemente.
Aos 93 anos, Verequete era um símbolo de resistência. Há anos vinha lutando contra a saúde frágil. Mas, sempre que era chamado para participações em shows se esforçava para cantar e brigava quando alguém tentava lhe tirar o microfone das mãos. Ele só queria continuar cantando e recebendo o calor dos aplausos de seu público.
Nosso rei nasceu em 1926, na localidade de “Careca”, próximo à Vila de Quatipuru, em Bragança, mas ainda criança, assim que perdeu a mãe, Maximiana Gomes Rodrigues, mudou-se com o pai, Antônio José Rodrigues, para o município de Ourém.
Precoce, aos 12 anos, resolveu morar, sozinho, em Capanema, onde trabalhou como foguista. Nos anos 40, veio para Belém. Morou primeiro em Icoaraci. O apelido, “Verequete” aconteceu por acaso.
Num relato à atriz e diretora de teatro Karine Jansen ele explicou: “Uma moça que eu gostava me levou num batuque. Uma certa hora da madrugada, o Pai de Santo cantou ‘Chama Verequete’. Cheguei no trabalho contando aos colegas o fato. Quando acabei de contar, me chamaram de Verequete. E assim ficou”. Disso, saiu a composição que se tornou uma das mais populares da carreira do mestre… “Chama Verequete”.
Em vida recebeu inúmeras homenagens e foi tema do documentário “Chama Vererquete”, dos diretores Luiz Arnaldo Campos e Rogério Parreira. O filme, de 15 min., foi produzido com a primeira edição do Edital de Incentivo à produção de Curta Metragem (hoje, extinto), na gestão de Edmilson Rodrigues, então prefeito de Belém e um apaixonado pelo carimbó e particularmente pela obra de Mestre Verequete.
Outra grande homenagem é a coleção composta por uma caixa que inclui, além do curta-metragem, o CD “Verequete é o Rei” e o livro “Som dos Tambores”, numa realização da Associação Amazônica de Difusão Cultural, Social e Ambiental, com patrocínio da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD).
Mas o reconhecimento, que veio tardio, não lhe trouxe a saúde de volta. Durante sua trajetória, Mestre Verequete jamais viveu somente de seu trabalho como artista. Para sobreviver, muitas vezes, ele teve que vender churrasquinho na porta de sua casa, na periferia de Belém.
Agora, já em outro universo, ele receberá mais e mais homenagens. Sua imagem de homem simples, chapéu na cabeça, sempre, além de sua voz firme e um olhar encantador e profundo, vai ficar para sempre na memória do paraense.
O velório será no Theatro da Paz, a partir do final da tarde."

Postado por Luciana Medeiros (In: http://www.holofotevirtual.blogspot.com/)